Fartos de vacuidade política

Quarenta e um anos volvidos sobre a derrota da ditadura fascista, os portugueses estão confrontados com a actuação do governo de direita, que visa descaracterizar profundamente o regime democrático prosseguindo, com deliberada determinação ideológica, na destruição dos valores de Abril, de direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República Portuguesa consagra.

É certo que este não constitui um problema novo, não surpreende, pois, desde há trinta e oito anos, os partidos políticos que assumiram o Poder Executivo, concorreram decisivamente para um visível enfraquecimento do nosso Regime Democrático. Mas nunca como agora a situação atingiu tais dimensões.

Os portugueses vivem hoje um momento histórico dos mais complexos, com restrições antidemocráticas promovidas por gente sem sentido de Estado, submetida a fortes interesses económicos e financeiros nacionais e internacionais, acção esta que tem possibilitado uma desenfreada exploração capitalista com efeitos tão perversos, tão nefastos, que não se pode afirmar nunca que, em cada região, em cada cidade, em cada bairro citadino, em cada vila ou aldeia, não paira a ameaça da fome, que o espectro do desemprego não cessa de aumentar, que as distorções de distribuição da riqueza não se acumulam ou que o desespero não domina o quotidiano de largos estratos da população.

Esta é a cruel realidade do País. Precisamente por isso torna-se urgente retomar os princípios democráticos por que o Povo lutou e abraçou com entusiasmo e com esperança. Importa, então, ter lucidez de espírito, capacidade de análise e de decisão por parte dos trabalhadores, dos intelectuais, enfim, da sociedade em geral, para se impedir no futuro e com combatividade, a continuação de políticas ideologicamente neoliberais que arruinaram a economia e conduziram Portugal para patamares inaceitáveis em Democracia.

Impõe-se, nesta altura, o dever efectivo dos portugueses darem ao mundo o exemplo moral de se oporem com firmeza às instituições capitalistas, tão avassaladoramente dominantes, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu ou a Comissão Europeia, que desprezam a soberania e independência do nosso País e a quem o governo se verga numa actuação que se pode classificar de verdadeiramente anti patriótica e que a História não deixará de julgar. Com a agravante do governo beneficiar do apoio do Presidente da República que, ao longo dos anos, se tem comportado mais como um mero militante do PSD do que como garante do normal funcionamento das instituições democráticas numa demonstração inequívoca de flagrante insensibilidade para os problemas que afectam milhões de cidadãos.

Este ano é um ano em que vai estar em jogo o futuro do País. As eleições legislativas podem proporcionar aos portugueses – vítimas, em proporções inauditas, das políticas que empobreceram o País – a audácia de derrotar com clareza os partidos responsáveis pelo descalabro do sector produtivo, pelo desmantelamento de empresas públicas estratégicas e essenciais ao desenvolvimento da economia, partidos que impõem austeridade sem limites, promovem a destruição de centenas de milhar de postos de trabalho, restringem as funções sociais do Estado e agravam as injustiças sociais.

Está nas mãos de todos escolhermos livremente em quem votar. Mas não devemos, na situação dramática que se vive, alhearmo-nos de um acto eleitoral de grande relevância para o futuro do País. Há que reflectir seriamente no facto de, se optarmos por nos abster de tomar posição, de expressar a nossa vontade política através do voto, isso beneficiará principalmente os mentores das políticas em curso.

Mas, atenção, para se reencaminhar Portugal para os Caminhos de Abril, para se relançar o País na senda do progresso e do desenvolvimento, não se pode prometer ao eleitorado que vão ser adoptadas medidas que, depois de analisado o seu conteúdo, se chega facilmente à conclusão de que são demagógicas e revelam contemplar, apenas, algumas alterações de circunstância às praticadas nos últimos anos e que, a serem aplicadas, acabarão por contribuir, efectiva e gravemente, para o prosseguimento das políticas que os trabalhadores, os desempregados, os reformados, os jovens obrigados a emigrar, tanto têm combatido.

Os portugueses estão fartos de formulações e de promessas perenes de vacuidade política.

Revista Seara Nova

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