Intervenção da Professora Doutora Isabel Allegro de Magalhães sobre o livro Francisco: Desafios à Igreja e a o Mundo”, FCG, 02/05/2017

FRANCISCO: Desafios à Igreja e ao Mundo

Anselmo Borges. 2017

Pela Professora Doutora Isabel Allegro de Magalhães

1. Perguntas cruciais. O imenso desafio ao sentido de existirmos

Este livro de Anselmo Borges reúne, entre outros, muitos dos seus textos publicados no DN ao longo do pontificado do Papa Francisco. A macro-estrutura que agora os acolhe em livro confere-lhes não só unidade como uma outra racionalidade. Não se trata de uma antologia de textos soltos, mas de um corpo de pensamento estruturado sobre questões fundamentais.

Do ponto de vista filosófico e teológico que é o seu, Anselmo traz aqui várias das matérias que ocupam o pensamento, aberto e desassombrado, de Francisco. Trabalha sobre esses temas, dando a palavra a este Papa que realmente desafia a uma mudança de raiz: na Igreja como na governança política mundial, nos comportamentos individuais como nos colectivos das sociedades, testemunhando da exigência do Evangelho. Com Francisco, Anselmo mostra de que formas, se tivermos o ‘ouvido de discípulos’ (expressão do profeta Isaías[1]), uma revolução global pode ter início: fora e dentro da Igreja, nas vidas de cada uma e cada um de nós.

* A “Introdução” ao livro é, só por si, valiosa. Poderosa a reflexão sobre o humano, no seu limite e grandeza. À longa interrogação metafísica formulada por Ernest Bloch “Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? O que esperamos?”, Anselmo dá belíssimos elementos para uma resposta: “Somos seres de intervalo, entre o mistério exultante do ser e de se ser, e a noite ameaçadora de morte e do nada.” (19). É que ninguém possui em si a razão do seu existir, somos seres descentrados, com o centro de Sentido fora de nós. Fernando Pessoa (em Bernardo Soares) dá conta disso mesmo, de outro modo: “Deus é nós existirmos e isto não ser tudo” (fr. 22[2]).

* Anselmo clarifica algo fundamental para uma atitude de fé, ao apontar a diferença entre uma teologia dogmática, especulativa, com afirmações perentórias e doutrinais (de matriz grega e na linha da Escolástica); e uma teologia narrativa, estruturada pela História, que se manifesta na própria vida. Exemplo disso, escreve Anselmo, é a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos “Quem devemos dizer que és?” – “Dizei que os coxos andam, os cegos vêem, a boa-nova é anunciada aos pobres […]”, etc. Este Papa não é, nem pretende ser, teólogo (se o fosse, estaria do lado de uma teologia narrativa, dada a sua proximidade da vida). É antes Pastor, com um território que não é apenas o do cristianismo, mas o mundo global, ao ser reconhecido por cristãos e não-cristãos como líder moral e ético com impacto universal.

* Essas páginas introdutórias preparam o legente – aquele ou aquela em quem o texto age, segundo Maria Gabriela Llansol – para uma mudança de fundo, suscitada pelas palavras e gestos de Francisco. Anselmo não só ecoa os temas do Papa, mas com eles articula o seu próprio pensamento, livre e também ousado, aprofundando, argumentando, interrogando e ampliando muitos desses e outros temas (sobretudo a partir da 2a. parte[3]).

2. Desafios

O nome que o Papa escolhe para si, à imagem de Francisco de Assis, bem como a sua auto-definição como bispo de Roma, e não Sumo Pontífice (apenas com o primado inter pares), marcam desde início a viragem radical trazida pelo seu pontificado, visível a diferentes níveis. Por ex.:

* Ao repor a noção daIgreja como Povo de Deus – noção bíblica e conciliar, do Vaticano II – eliminando assim a visão corrente da Igreja como só hierarquia. Privilegia pois a sinodalidade, separando a ecclesia do Estado do Vaticano.

* (Viragem) ao apelar a uma igreja pobre e das periferias, “igreja de saída”: posicionada não no centro e voltada ad intra, vigiando o rigor doutrinal e a prática de uma micro-moral, mas umaigreja profética, que denuncie a gravidade das situações (a economia financeirizada ao serviço só de alguns e preterindo multidões; o desgaste e o desperdício dos recursos que são de todos, a falta de cuidado dos que têm poder para com quem vive excluído de tudo; a falta de sensualização do sofrimento alheio). E, ao mesmo tempo, apela a uma Igreja que anuncie e pratique uma ética do cuidado e da misericórdia, sobretudo com os mais afectados pelos males do mundo. (Não creio, porém, que o Papa defenda qualquer sistema económico, socialista ou capitalista: o que lhe importa é a defesa dos excluídos, a distribuição justa da riqueza, a sobrevivência do Planeta.)

* (Viragem ainda) ao denunciar de modo impiedoso os estilos de vida de quem, vivendo com todo o conforto, consumindo e desperdiçando, esquece as necessidades de outros.

* (Viragem ainda) ao celebrar com a Igreja Luterana da Suécia o aniversário da Reforma de Lutero; e ao agir com os Patriarcas ortodoxos, em ordem a propostas para uma ética global (na linha Hans Kung).

* (Viragem) ao dar prioridade a políticas para a paz, para isso apostando num constante diálogo com o islão, visitando com as autoridades religiosas locais vários países de matriz islâmica.

* Têm ampla dimensão as propostas de Francisco. De entre elas, nomeio cinco a que sou especialmente sensível:

1) substituir o autoritarismo eclesiástico pela sororidade e a fraternidade vividas nas primeiras comunidades cristãs;

2) substituir a noção de uma igreja-hierarquia, distanciada da Comunidade dos crentes, com seus privilégios e poder, pela abertura a todos, sobretudo aos mais ofendidos e humilhados;

3) substituir a vida fácil e a ostentação de riqueza (em especial o luxo do Vaticano), pela frugalidade, proximidade e calor humano de Jesus;

4) substituir o pensamento normativo por atitudes genuinamente interrogantes e abertas ao Espírito que sopra onde quer;

5) substituir o excesso de autoridade da hierarquia, que proíbe uma investigação livre (condena a teologia da libertação, marginaliza as teologias feministas), pela liberdade de pesquisa na busca séria de Deus.

* Ouvimos de Francisco que o Vaticano II foi “uma ventania do Espírito Santo sobre a Igreja”[4].

Ora é exactamente isso que ele próprio tem sido sobre cristãos e não-cristãos: ventania a desarrumar hábitos e vícios naturalizados… E o que mais desarruma é a sua afirmação urbi et orbi de que “Tudo se revela na misericórdia”[5]; de que as obras de misericórdia, ao serem ‘artesanais’, podem ser ‘moldadas de mil modos por nossas mãos’. Com isso desafia a Igreja e o mundo a moldarem e erguerem uma cultura do respeito e do cuidado, na alegria que dá sentido a tudo — como os nomes dos seus textos[6] luminosamente sinalizam.

* Sem nomear os filósofos que consideram a responsabilidade pelo outro ontologicamente anterior à própria liberdade individual (Hans Jonas ou Emmanuel Lévinas, e já Teilhard de Chardin, noutro contexto), o Papa propõe uma consciência humana acima de tudo responsável: responsável por si, e pelo bem comum; responsável pela vida de cada ser, e pela própria Terra.

3. Mulheres na Igreja

Pediu-me o Padre Anselmo que abordasse aqui a situação das mulheres na Igreja, aos olhos de Francisco (e suponho que aos meus olhos também…).

* Eu diria que, se é assustadoramente ousada e destemida a radicalidade evangélica deste Papa, já o mesmo não poderá dizer-se do seu pensamento e chamada relativamente às mulheres na Igreja.

A ventania no campo da ética social e da política, é aqui talvez só Por ex.:noântsa dela ça, dizia) çor ex.:eio, naçadoraculino, mento organizado)ero Papa Francisco para alertar os seus leitores. brisa suave.

* Anselmo Borges pensa que as mulheres na Igreja “não podem continuar a ser discriminadas” (24). O bispo de Roma reconhece também a sua posição subalterna na Igreja, e discorda dela. Afirma que as mulheres “podem e devem estar mais presentes nos lugares de decisão da Igreja”. No entanto, para si, isso seria apenas “uma promoção de tipo funcional” (81). (Ao mesmo tempo, em 2016 equiparou formalmente Maria Madalena aos Apóstolos.) Elogia as mulheres pela “sensibilidade particular pelas coisas de Deus”[7]. Diz que “Maria é mais importante que os apóstolos” [8], que “a mulher na Igreja é mais importante que os bispos e os padres”; que “não há igreja sem esta dimensão feminina, porque ela mesma é feminina”.

Só que, na prática, as mulheres na Igreja não têm voz nem missão significativa.

* Talvez nisto eu exagere um pouco, mas a meu ler a sua presença nos textos papais — e este Papa aqui não vai muito além de outros, nem tão pouco além da doxa corrente – (o seu modo de presença, dizia) assemelha-se, de algum modo, ao lugar que, no Banquete, Platão dá a uma mulher, dita sacerdotisa de Mantineia: Diótima. (Julgo que este texto ajuda a pensar a questão.)

A figura de Diótima dentro desse diálogo – sobre o eros masculino – serve uma certa retórica, útil para a fala de um homem: o filósofo Sócrates. Mas ela não participa no banquete evocado. O seu discurso, diz Sócrates, éo melhor que ele já ouvira sobre o tema. Ora a fala de Diótima usa uma retórica claramente feminina, ao incorporar elementos da corporeidade das mulheres, só que deslocando-os para o contexto masculino que ali importa. Por ex., fala em ‘gestação’, não de filhos, mas gestação intelectual e espiritual da beleza (208e); fala de ‘procriação’ e de ‘dar à luz’, mas não de filhos: de discursos (206e). Nesse banquete, evocado à distância, Sócrates cita-a em discurso directo, mas in absentia. Percebe-se que se trata do discurso que o próprio Sócrates ali queria fazer, e que efectivamente faz, mas por entreposta voz: a dessa mulher (empírica ou ficcional, não se sabe) fisicamente ausente da cena desse banquete.

* Sem dúvida, a Igreja conta com uma presença massiva de mulheres, só que nela o papel destas é subalterno, quase invisível. Na vida eclesial, como disse já, não lhes é reconhecida fala nem actuação de peso.

Nos textos eclesiásticos e papais, a sua nomeação supõe a sua ausência, mesmo quando as suas qualidades (como as de Diótima) são amplamente elogiadas. Isto acontece, mesmo se dizemos que Maria é Mãe da Igreja e que a Igreja é mãe dos crentes: a Santa Madre Igreja. Esse silenciamento das mulheres nas igrejas – à excepção, é claro, de Maria mãe de Jesus – faz da retórica algo vazio, sem correspondência real na vida da Igreja.

* Deixo aqui de lado a questão do acesso ao sacerdócio ordenado de mulheres, apenas com uma nota: a proibição desse acesso assenta numa razão histórico-antropológica, cujo rigor é, no mínimo, estranho: o facto de Jesus ter sido homem, e não mulher, é considerado impedimento cabal.

* Além disto, às mulheres (e são mais de metade do Povo de Deus), a hierarquia não permite serem diaconisas, nem porta-voz de posições oficiais da Igreja, nem oradoras em celebrações litúrgicas (nem muito menos presidir a estas), nem teólogas citadas ou reconhecidas.

O que torna isto ainda mais estranho é o facto de, nos textos do Novo Testamento, as mulheres aparecerem com atitudes de grande significado, sendo tratadas por Jesus como iguais e, nas primeiras comunidades cristãs, elas celebrarem a Eucaristia, falarem nas assembleias, o que S. Paulo – ao proibir – confirma:

Que as mulheres se calem nas assembleias; não têm licença de falar […] (1 Cor 14, 33)

Isto está nos textos, e hoje sabe-se que já eles sofreram intervenções tardias que suprimiram o papel-chave das mulheres nas primeiras comunidades cristãs.

Muitos são os exemplos desse seu papel inicial. Um deles é o episódio que narra a entrada imprevista de uma mulher, dita pecadora, na casa onde Jesus estava, convidado. Tendo comprado um vaso de alabastro com requintado perfume, a mulher, sem nome, prostra-se aos pés de Jesus, derramando sobre eles esse perfume, enquanto os beija, chorando e secando-os com seus cabelos. Aos que criticamente presenciavam a cena (na versão de Mateus – e também na de Marcos), Jesus diz:

Ao derramar este perfume sobre o meu corpo, esta mulher preparou-o antecipadamente para a sepultura. Em verdade vos digo: em qualquer parte do mundo onde for proclamada a boa-nova, em memória dela será evocado o que ela fez. (Mt 26, 12-14; Mc 14, 8-10-ra﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽nça viva e leva a uma conversra a sepuyltura. Em verdade vos declaro: sempre que seja proclamado este Evangelho no mun[9])

Será que alguém aqui ouviu alguma vez comentar estes versículos na igreja? Eu nunca vi cumprida esta indicação expressa de Jesus.

Também neste campo, Francisco procura abrir caminhos. (Constituiu há pouco uma comissão paritária – a que não têm faltado problemas – para analisar a hipótese do diaconato feminino.)

Há que reconhecer, porém, que não é aqui que se manifesta a sua imensa abertura. A sua prioridade é o apelo a uma resposta eficaz às actuais calamidades do mundo. E há que dar-lhe razão, malgré tout

Confiamos em que o caminho permaneça aberto. E isso dá uma razão forte à esperança.

Ora livro de Anselmo Borges acentua a esperança e – com Francisco – desafia-nos a mudar de vida. Ou de caminho. Ainda que esse caminho se faça pela porta estreita – por isso mais custosa de entrar.

Desafia-nos ainda a mudar a vida.

Isabel Allegro de Magalhães

[1] Is /50, 4.

[2] Edição de Richard Zenith.

[3] Sexo e género, especismo, transhumanismo, diálogo inter-religioso, democracia na Igreja, transhumanismo, etc.

[4] “Carta Apostólica às pessoas consagradas”.

[5] ‘Misericordia et misera’ – Carta Apostólica de 2016.

[6] Evangelii gaudium, Amoris laetitia, alegria que ecoa também na luz e no louvor de outros títulos: Laudato si; Lumen fidei.

[7] Discurso em 2013, ao seminário sobre Mulieris dignitatem, de João Paulo II.

[8] Novembro, 2016.

Rádio Vaticano, 2017. “O objetivo da mulher é criar harmonia, sem a mulher não há harmonia no mundo”.

[9] Jo 12,7; e Lc 7,36ss – não incluem este versículo com estas palavras de Jesus.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s