Ensaio sobre A. Ianelli

Meus caros amigos,

A revista “Agulha” escolheu Arcangelo Ianelli como artista convidado de seu último número e o seu editor, o poeta, ensaísta e fotógrafo, Floriano Martins, me pediu um texto sobre o artista. Tive três motivos para aceitar imediatamente. A revista Agulha tem uma forte tradição cultural de muitos anos, o Floriano é um editor de alta qualidade e eu fui um observador privilegiado da obra e do processo do Ianelli, pois fomos amigos. A seguir este ensaio.

Abraço forte,

Jacob Klintowitz

Arcangelo Ianelli, o silêncio das formas.

Nem uma gota de tinta no chão. O cavalete sempre impecável. Na tela que parece imensa e na pintura inacabada, nada esta fora do lugar. Nem um gesto vago, uma linha equivocada, um rabisco a lápis para orientar o caminho do pincel. A mão que conduz o pincel é pensante, já traçara o seu destino antes da ação. Tudo conduz a imaginar que se trata de um artista cerebral, organizado, rígido nos seus procedimentos, obediente às ideias bem definidas do que é arte e do que não é arte. Tudo tão estável, sereno, profundo.

E, no entanto, o pintor Arcangelo Ianelli era caloroso, sorridente, amável, evitava o conflito de palavras e opiniões, ainda que, sobre assuntos essenciais, não costumasse mudar de opinião. Era extremamente gentil à maneira latina, com cafezinho, vinho, salgadinho. E gostava de olhar direto nos nossos olhos. Dezenas de vezes eu entrei no ateliê do pintor Arcangelo Ianelli enquanto ele estava trabalhando e o assoalho e ele sempre estavam impecavelmente limpos.

Ianelli não gostava de discussão sobre a natureza da arte. Era um pintor e para ele pintar fazia parte de seu ser, uma atividade tão natural como qualquer outra manifestação corporal ou psíquica. E mais até do que a naturalidade de outros exercícios, uma vez que o ato de pintar trazia à tona a aguda consciência do seu ser. Quando pintava ele estava mais espesso e, curiosamente contraditório, mais sonhador. O ato de pintar o definia para ele mesmo, estabelecia os limites e a profundidade da sua consciência de si mesmo e de sua relação com o entorno.

A sua pintura sempre abominou a gestualidade, era construída lentamente e desconsiderava o tempo de elaboração. Eu não tenho dúvida de que a pintura era soberana para Arcangelo Ianelli. Ele estava a serviço dela. Provavelmente ele encararia esta colocação com distanciamento, pois lhe pareceria mística com a sua implícita noção de missão. A sua pintura era uma paulatina construção e esta construção obedecia a um planejamento visual preciso.

No início, na sua juventude, era o doce universo cotidiano, as pessoas, a cena doméstica, os casarios, o cais do porto com os seus barcos, a paisagem suburbana. Depois, já um artista convicto e maduro, e por longo tempo, a sua pintura se organizava a partir de combinações geométricas, estruturação de figuras geométricas que forneciam a composição fundamental. Mesmo que a cor e a delicadeza de seu tratamento fossem a nota dominante, a composição era solidamente organizada. A suavidade do cromatismo a dominar a elegância da estrutura.

Quando em 1978 pensou no primeiro livro sobre o seu trabalho ele foi metódico. A narrativa seria o seu percurso do figurativo à abstração. Paulo Mendes de Almeida, crítico de arte, poeta e jurista, o seu amigo mais constante, e eu, participamos das discussões iniciais e do “fechamento” do livro. Ianelli avançou do conceito de ter um único crítico de arte responsável pelo livro (era a minha opinião) para uma edição antológica com vários críticos. Acredito que esta decisão se deva ao seu receio de ficar marcado por uma ideologia artística, um comprometimento com uma das tantas correntes que se digladiavam no circuito da arte. Ele preferia não definir uma filiação estética e um engajamento cultural. A sua pintura era soberana e o seu partido era este.

Talvez por isto, pela certeza de seu verdadeiro partido na arte, talvez por seu espírito compassivo, Arcangelo Ianelli não procurou orientar os textos críticos, nem mesmo direcionando o objeto por épocas ou fases. Comentávamos entre nós três, Paulo, eu e Ianelli, os textos na medida em que chegavam, e a sua opinião era sempre acolhedora e manifestava certa surpresa. Aparentemente Ianelli se espantava que a pintura gerasse tantas palavras. O meu ensaio no livro era excêntrico em relação ao todo. Na época eu ficava maravilhado com a sensibilidade e a percepção na hora da criação. Hoje eu ainda fico maravilhado. Mas escrevi sobre isto, sobre como é possível ao pintor pintar uma tela com a proximidade de um braço estendido, 50, 60 centímetros, aproximadamente, sem ver a totalidade da superfície. De que maneira o pintor percebe que a parte em que trabalha se harmoniza com o todo? Mesmo que a cada momento ele se afaste para contemplar, sempre existe a perda da visibilidade, Na distância, perdem-se as nuanças da pincelada, na proximidade, a noção da totalidade. E, no entanto, os pintores conseguem a harmonia, independente do formato do suporte. Analisei esta relação pintor-pintura em muitas páginas e esperava certa reserva do pintor por tratar menos da sua pintura e mais da sua relação perceptiva… E, no entanto, Ianelli ficou feliz com o meu texto um pouco desviante. E ainda me trouxe a opinião de Hermelindo Fiaminghi, seu dileto amigo pintor, que me classificava entusiasticamente como um filósofo…

A cor e o seu tratamento delicado, minucioso, sem rupturas e texturas, uma verdadeira pele sobre o suporte, foi uma constante a integrar todos os seus momentos. Num artista de tão longa atividade, as mudanças se sucedem, mas, fundamentalmente, em minha opinião, Arcangelo Ianelli teve três momentos essenciais no seu trabalho. A figuração, a abstração lírica com estrutura geométrica, e a abstração sensível sem o suporte geométrico. O que não impede, é claro, que sejam anotadas as pequenas mudanças, as marcas do percurso. O próprio Ianelli considerava que a sua pintura era a narração de um percurso que ia desde o seu início figurativo até a abstração. No seu caso a abstração era também a ausência do objeto, pois o sentimento de sua ausência estava presente, impregnava a cor tão elaborada e refinada. Não é o primeiro caso na arte. Kasimir Malevich, o pai de todos os abstratos, em carta a um amigo em que se defende da acusação de ter levado a pintura para um deserto, fala exatamente do sentimento da ausência do objeto. Malevich falou do sentimento e a emoção não pode ser desligada da contemplação da arte abstrata. Na verdade de toda contemplação de formas artísticas. Em minha opinião toda arte é um núcleo abstrato. Mas, em especial, na chamada pintura abstrata, pintura não-objetiva, ainda hoje objeto de certa desconfiança, a emoção faz parte de seu diálogo com o público.

A vida da pintura é peculiar. O pigmento que se ilumina na pintura de Arcangelo Ianelli pulsa de vitalidade. E, no entanto, ele está contido nos estritos limites da geometria e do firme controle de sua expansão. Em Ianelli a cor tem uma existência extraordinária e o artista desenvolveu o seu trabalho numa coerência notável e, deste ponto de vista, o da coerência é um exemplo na arte brasileira.

Entretanto é mais notável ainda a sensação que a arte de Arcangelo Ianelli passa de estar sob controle. Uma das tristes caraterísticas que a manifestação artística adquiriu em nossos tempos é a do desleixo, da frouxidão. Não se trata da incorporação do acaso, mas do hábito, fantasiado de modernidade ou pós-modernidade, das cores sujas, das tintas escorridas, do desenho caricatural, apressado e infantil. Existe a crença em algumas pessoas de que se estivermos perto do descontrole, da loucura ou da infantilidade, estaremos sendo criativos. Na verdade, estaremos sendo apenas descontrolados, loucos e infantis. Ianelli nunca se deixou seduzir por estas facilidades e à estridência preferiu o silêncio das formas.

A sua pintura tem a qualidade do silêncio, o valor introspectivo e a consciência de si mesmo. Não há porque exaltar a qualidade do ofício num artista, pois sem esta condição imprescindível a sua obra terá um limite muito pequeno. Mas quando a excelência de meios serve para a consecução de objetivos claros, às vezes, nos lembramos dela. Ianelli é um pensador e os seus passos são consequência deste temperamento. E a obra sob controle, no seu caso, favorece a intuição que quase vemos se consubstanciar à nossa frente.

A vida da cor é o personagem do artista, desde o seu início figurativo, quando a sua modéstia pessoal e a maneira amorosa de aproximação favorecia o assunto, as memórias e a simplicidade cotidiana que o envolvia. Mas sempre a matéria lutava para se tornar significação. A sua arte se construiu na organização de um universo simbólico. O sentimento e a matéria da intuição.

Muitos tingem a tela de sangue e acreditam que isto produz um verismo mais contundente e se comunica melhor com o público. Ianelli ficaria chocado se tivesse necessidade de utilizar recursos extra-pintura. Ele caminhou em sentido contrário. A cada vez é mais sutil o cromatismo de suas telas. E o público aceitou cada vez mais o seu trabalho, ainda que esta não seja a sua preocupação. Estou convencido que o artista tinha um respeito mítico pela arte e se colocava como um servo à disposição da tarefa de dar continuidade a esta tradição.

A cor terminou por eliminar o desenho geométrico, mas o adivinhamos subjacente, estrutural, organizador. Este é o ponto de equilíbrio. A suavidade desta pintura resulta, antes de tudo, de que tudo está incorporado a ela e nada precisa ser demonstrado. A vida interna da pintura de Arcangelo Ianelli é autônoma e ela é um ser de vida própria.

A pintura é um ser?

Quem nos convida a penetrar na sutileza destas transparências, veladuras, meios tons, expansões ilimitadas?

Já foi notado que Ianelli trabalhou para a construção, num período de destruição. É um clássico.

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