Furto de material de guerra em Tancos

Em primeiro lugar, esclareço a opção por “furto” e não “roubo” ou, muito menos “assalto”.

Opto por furto, pois para haver roubo é necessário que haja violência no furto e só com violência específica é que passa a haver um assalto.

Ora o que nós temos pela frente é um simples desaparecimento de material, sem qualquer evidência de violência no facto.
O presumível buraco na rede de protecção não passa disso mesmo, um simples buraco, e não convence ninguém de que não foi posto apenas para disfarçar.

Por isso, a história está, de facto, muito mal contada e é urgente que a vontade expressa pelo Presidente da República se concretize: esclarecer tudo, rapidamente, doa a quem doer!

Nesse esclarecimento, há que dar respostas a questões que se colocam, vindas de diversos quadrantes:
• Quando se deu o desaparecimento do material?
• Como desapareceu? Todo de uma vez ou, como muitos opinam, por várias vezes e durante um espaço concreto de tempo? E, neste caso, durante quanto tempo durou o desaparecimento do material?
• Hipótese mais grave ainda, o material desaparecido chegou a entrar nos paióis ou foi apenas acrescentado à carga dos mesmos?
• Nestas duas hipóteses, do desaparecimento por várias vezes ou do simples aditamento à carga, de quem foi a responsabilidade da operação, desde o desaparecimento à decisão de acertar as cargas do paiol?
• No caso de um furto de uma só vez, como foi transportado o material?
Haverá outras questões a necessitar de resposta, mas estas impõem-se desde já para se compreender toda a trama do “assalto aos paióis de Tancos”.

Parece indubitável que, fosse como fosse, não teria sido possível fazer o que porventura se fez sem a participação activa de elementos da estrutura interna das unidades responsáveis pelos paióis.

Até que ponto da hierarquia chegou essa responsabilidade é uma das primeiras e principais respostas que é imperioso encontrar.
O afastamento dos coronéis comandantes das unidades envolvidas (5) permite-nos pensar que os responsáveis máximos do Exército, nomeadamente o seu chefe do Estado-Maior, estará preocupado com o que atrás afirmei.

Se assim não fosse, não se compreende um comportamento contrário à prática militar: quando existem problemas que urge esclarecer é ao comandante que é exigido o esclarecimento total desses problemas. Daí que, neste caso, caberia aos comandantes das unidades o esclarecimento do referido “assalto aos paióis”.

Tudo isto é imperioso esclarecer, pois a forma como tudo tem sido explorado a isso obriga.
De facto, sendo muito grave o furto do material de guerra, não é menos grave o aproveitamento que se vem fazendo desse furto.
E, adepto da teoria da conspiração, levanto uma das primeiras questões que tudo isto me levanta: porquê, agora, neste momento em que o rescaldo dos trágicos incêndios de Pedrógão Grande e terras afins ainda se não fizera, aparece a denúncia do furto de material de guerra, em qualidade e quantidade suficientes para lançar o pânico na sociedade portuguesa?

Com efeito, se acreditarmos que se tratou de um furto prolongado – os sinais e as marcas fabricados para a comunicação social não têm a força de demonstrar ter havido um roubo e muito menos um assalto… – há que perguntar, com firmeza: Porquê, agora?
E, se quisermos analisar tudo o que se tem e continua a passar, todas as reacções havidas no campo político, talvez encontremos, com alguma facilidade, a resposta a essa questão.
Certamente que será difícil aprofundar o “comando” de toda a operação, provavelmente haverá alguns que reagirão de forma honesta e genuína e ajudarão, sem o saberem, as intenções de quem planeou e lançou a operação, mas é minha convicção que tudo foi planeado e lançado de forma premeditada.
Tentemos esclarecer melhor o nosso pensamento: sendo o objectivo principal o descredibilizar este Governo, provocando (ouro sobre azul…!) a sua queda, há que juntar aos resultados de uma tragédia natural (até agora nada nos diz que tenha sido provocada) um escândalo de tal natureza que leve à conclusão de que este Governo é incapaz, não serve, tem de cair.
O facto é que tudo o que se seguiu, a que temos assistido e vivido, nos permite consolidar a nossa teoria.

Naturalmente, os responsáveis militares tentam defender-se e justificar o que para muitos é difícil, se não impossível, de compreender.
Para isso agarram-se às justas, pertinentes e de há muito existentes queixas da desastrosa acção do poder político face às Forças Armadas.
Com efeito, este poder político, temeroso da isenção partidária das Forças Armadas, cujos componentes juram servir a Nação e não os seus dirigentes; temeroso da intervenção cíclica das Forças Armadas na ordem do País, quando a ética e a honra desaparecem; temeroso de que um novo “25 de Abril” se possa repetir, avançam para a destruição das Forças Armadas, como principal força armada do País, acaba com o Serviço Militar Obrigatório, diminui-lhe os efectivos de tal forma que os colocam apenas aptos para cumprirem missões no âmbito da política externa (mesmo aí, tem o cuidado de não lhes fornecer todos os meios necessários ao cumprimento das missões – só a extraordinária capacidade das Forças Armadas lhes tem permitido o cumprimento cabal dessas missões – não fosse o diabo tecê-las e as Forças Armadas aproveitarem esses meios para uma hipotética intervenção interna), reforça as forças policiais sobre as quais está convencido ter mais capacidade de domínio.
Daí que, os militares – cuja Condição Militar, pedra base da sua essência como militar, tem sido espezinhada e destruída – utilizam essa contínua distratação das Forças Armadas pelos políticos, para justificarem o que aconteceu, não percebendo que a permanente conivência dos responsáveis militares com o que se tem passado de há muitos anos a esta parte, também terá de provocar a sua responsabilização, mais cedo ou mais tarde.

É um facto que, sempre que um chefe militar “bateu com a porta”, logo apareceu um general pronto a ocupar, de forma no mínimo criticável, o lugar que ficou vago. Estou a lembrar-me dos generais chefes do Estado-Maior do Exército, Loureiro dos Santos, Gabriel Viegas e Carlos Jerónimo.
Pessoalmente, até poderia compreender que o responsável maior das Forças Armadas ou de um dos seus Ramos se não demitisse, convencido de que a sua acção poderia contribuir para minorar os estragos da acção política dos governos e nomeadamente dos seus ministros da Defesa Nacional.
Poderia compreender, ainda que me pareça extraordinariamente difícil perceber como foi possível aceitar e conviver com a prática e os resultados de ministros como Paulo Portas, Aguiar hífen Branco e Azeredo Lopes.

No entanto, não consigo compreender como se continua a tolerar a total destruição da Condição Militar, o total desvirtuamento da natureza e papel do IASFA e, neste caso de Tancos, se chega ao ponto de ter cinco unidades responsáveis pela segurança de uma instalação militar tão importante como o conjunto dos paióis de Tancos!

Não compreendo e, por muito que concorde com o facto de a responsabilidade maior caber ao poder político, tenho dificuldade em ilibar as Forças Armadas pelo “estado a que tudo chegou” e pelos resultados daí advenientes.
Mas, salientada a natural justificação a que assistimos, por parte dos militares, atentemos agora no miserável aproveitamento que, com utilização de todos os meios, os verdadeiros actores desta farsa estão fazendo.

De repente, todo o mundo descobre que os diversos terrorismos e os diversos agentes do crime organizado só conseguem levar para a frente os seus intentos porque passaram a ter acesso à obtenção (sabe-se lá como!) do material roubado em Tancos!
Não têm, nunca tiveram outras fontes de fornecimento do material explosivo de que necessitam!…
Não são os EUA nem os outros países produtores e vendedores desses produtos que fornecem os ditos terroristas e criminosos. Eles soçobrariam se o roubo de Tancos não tivesse acontecido!…
Não, não estou a minorar a gravidade do desaparecimento de material de guerra de Tancos! Continuo a considerá-lo muito grave!
Depois, e simultaneamente, tenta demonstrar que a responsabilidade de tudo isto – tal como a dos trágicos incêndios, onde até se inventaram suicídios para dramatizar mais a situação – é do actual Governo.

É vê-los, a eles e a elas, os principais responsáveis pelo último Governo que nos levou onde levou, a gritar “aqui d’el-rei, que este Governo está a fazer asneiras, tem de assumir as responsabilidades, tem de demitir os ministros!”.

Esquecem, não, tentam escamotear que a responsabilidade do “estado a que isto chegou”, nomeadamente na área da Defesa Nacional e das Forças Armadas, vem de há muito tempo, dos diversos governos (com a cobertura dos Presidentes da República) do bloco central de interesses, que alguns chamaram de arco da governação, ou do poder.

E, se outros exemplos poderia dar, basta lembrar o anterior ministro da Defesa Nacional – Aguiar hífen Branco de seu nome – responsável maior pelo acentuar da destruição das Forças Armadas, mas que, apesar de tudo isso, chegou ao fim do seu mandato.
Quanta hipocrisia e demagogia!

Quanto desespero, por ver longe a hipótese de recuperarem um poder que tão mal utilizaram!
Tudo isto é inadmissível e condenável, se falarmos de forças políticas e dirigentes sérios e responsáveis.
Infelizmente, não é o caso e assistimos à evidência de que há muitos, alguns altos responsáveis, para quem o lema de “os fins justificam todos os meios” é a bússola orientadora das suas acções.

Com efeito, depois de uma actuação que aponta ter sido devidamente planeada e concertada, surge uma pretensa convocação de uma manifestação de oficiais para deporem as espadas às portas da Presidência da República – imediatamente desmascarada com a sua rápida anulação – que procurou alarmar a população e fazê-la temer pela segurança do Estado Democrático e de Direito. Mas, não desistem e, tentando aproveitar o balanço e a visibilidade que alguma comunicação social (!) lhes deu, procuram lançar um movimento.
A História, como em muitos outros casos, repete-se muitas vezes. Esperemos que, desta vez, tudo não passe de uma gorada tentativa dos extremistas que não sabem viver em democracia.

Para isso, há que estar atentos. Começando por denunciar e desmascarar as tentativas dos desesperados por terem perdido o poder.
Em suma, estejamos atentos, começando por não permitir que utilizem as Forças Armadas para os seus fins.

É que essas Forças Armadas são demasiado importantes para Portugal, para que permitamos que alguém brinque com elas! Isto, acreditando, como acreditamos, que as mesmas continuem patrióticas e a ser o principal sustentáculo do regime democrático em Portugal!

Por mim, continuo confiante na Democracia.

Vasco Lourenço

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