“Tiradentes”, de Araripe.

Meus caros amigos,

O tema da independência política, econômica e cultural é sempre central e no Brasil um de seus símbolos mais fortes é Tiradentes. Na área artística, muitos pintores, escritores e poetas trataram deste tema e do personagem Tiradentes. Eu próprio tratei algumas vezes do tema independência, nacionalismo e liberdade. No dia 21 de setembro o Palácio da Justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em Belo Horizonte, inaugurará a instalação do painel “Tiradentes, o Animoso Alferes”, (430 x 360 cm) do pintor Oscar Araripe. Nesta ocasião será lançado um catálogo alusivo ao painel com textos de juristas, professores, críticos de arte, pintores, gestores e depoimento do próprio artista. Fiquei estimulado com o “Tiradentes”, do Oscar Araripe e tive a alegria de escrever sobre esta nova versão tão original.

A seguir, o meu texto sobre a pintura do Araripe.

Tiradentes segundo Oscar Araripe.

Jacob Klintowitz

Tão lento aos nossos olhos que aparenta ser imóvel, lento, muito lento, ele se impõe diante do nosso olhar. Determinado, denso e envolvente: a face do destino. Ele se corporifica diante do nosso olhar subitamente sábio, sem pressa, como se também o nosso olhar fosse feito pela natureza e não pela inquietude e recuperássemos a virtude de contemplar. Talvez por preferir o mito ao invés da anatomia este “Tiradentes”, de Oscar Araripe, é único, poético e enigmático.

Tantas vezes eu contemplei este “Tiradentes” e sempre ele parecia nascer naquele momento. Talvez porque a sua forma seja uma geratriz; o vaso sempre portou o líquido sagrado e foi metáfora da fertilidade feminina. Certamente a simplicidade da solução plástica é comovedora, pois percebemos que é oriunda da meditação e nos associa a artistas como Henri Matisse e Alfredo Volpi, mestres do nosso tempo. E a simplicidade da forma, a sua sinuosidade, permite que o contorno seja psiquicamente impreciso e nuclear, já que entre o dentro e o fora o espaço está visualmente incorporado.

Tiradentes é o personagem histórico e o nosso herói mítico, símbolo da liberdade. A significação do Tiradentes como símbolo da liberdade, na verdade, como símbolo do desejo de liberdade; a primeira de todas, a do solo, a da região, a do país, a ausência de tutela. A escolha do próprio destino. A fatalidade que adivinho na figura central morta, Tiradentes com as mãos manietadas, me diz que ele é também uma metáfora do destino. Não é surpreendente, pois o mito, dado o seu caráter simbólico, se abre sempre para infinitas e concomitantes significações.

Oscar Araripe escolheu como tema o nascimento do mito. O herói morto que renasce e passa a habitar o imaginário de um povo e simbolizar o desejo de liberdade, de ausência de tutela. Em Oscar Araripe morre o rebelde revolucionário, o libertador, para desta derrota nascer o vitorioso símbolo da liberdade. A morte do homem é a vitória do herói. O desaparecimento físico do homem, o seu esquartejamento, a desintegração do seu corpo, forma a unidade, a unicidade, do herói da pátria. Oscar Araripe pinta a predestinação, o lirismo, o homem poeta que não escreveu o seu poema senão com o percurso de sua vida.

O encantamento desta pintura reside justamente na capacidade do artista atingir a simplicidade do lirismo, da poesia, do parecer nascido naquele momento. Não é ingênuo, não é primitivo, mas dá a sensação de que ali, nesta pintura, se atingiu um nível de pureza e de simplicidade que nos faz reconhecer um tipo de verdade. É por isto que nos lembra os mestres. Não poderia ser feito por um artista espontâneo ou por um ingênuo, mas só poderia ser feito por um artista que aceitasse a possibilidade da existência da inocência, do enlevo e do amor total, do amor desprendido e acima da própria vida.

O método de Oscar Araripe contribui para o paradoxo da sensação de leveza lírica num assunto trágico. Esta maneira quase tátil de criar as figuras, na qual refazemos e imaginamos o caminho do pincel e da mão que o segura, o movimento largo, a pincelada fluida, gestual, como se o pincel passeasse pela superfície, o que dá a impressão ao observador de naturalidade; a figura surge como um seguimento da natureza, alguma coisa sem esforço, um rio no seu leito e, como consequência deste movimento do mundo, a estabilidade da figura central, a sua imposição como um dado inexorável. A cabeça inclinada de Tiradentes, efeito do enforcamento, é o eixo de uma formidável e invisível diagonal que sustenta a composição. Existem coisas que só podem ser ditas, se bem ditas.

O cacófono bem ditas – benditas é proposital, porque remete ao conteúdo sagrado do mito libertador. Enriquece a impossível tarefa de representação de um valor espiritual, igual ao Tiradentes. No Brasil existiam três representações dramáticas e magníficas de Tiradentes: Pedro Américo, Candido Portinari e João Câmara. O caminho e a intepretação de Oscar Araripe foi original em relação aos três pintores que lhe antecederam, pois a sua narração é poética e simbólica, mas igualmente dotada de grande veracidade.

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