Click, a arte da ihclusão

Meus caros amigos,

Este ano eu tive a felicidade de participar de um emocionante programa de educação e arte. Houve três momentos nos quais o sentimento esteve especialmente exacerbado: o primeiro quando participei de uma aula de fotografia para pessoas com deficiência intelectual. A integração e o desempenho foram tocantes. O segundo foi quando eu contemplei o resultado, as belas fotos, o acento nos valores plásticos e sensíveis e, também, no seu seguimento, a intervenção cromática no preto e branco do original. O terceiro ápice emocional foi solitário, o momento em que eu criei o livro sobre esta experiência e escrevi o que vi, o meu sentimento e – talvez o principal – o que pude aprender sobre o processo de criação e a ilimitada capacidade humana de inventar o mundo.

No próximo dia 28 de setembro estaremos lançando, juntamente com uma exposição dos alunos, no Museu da Imagem e do Som, a partir das 19 h, o livro “Click. A arte da inclusão” (edição Inst. Olga Kos). É o minucioso relato desta aventura e um documento sobre o ser humano e a solidariedade possível. A organização do Instituto Olga Kos, os meios colocados à disposição, a sabedoria e a doação da equipe de trabalho, foi impecável.

A seguir, o meu ensaio sobre o assunto.

Click.

A arte da inclusão.

Jacob Klintowitz

O lugar onde a luz revela as sombras e onde a sombra elege a luz como personagem.

Anotar, denotar, perceber, tornar seu o espaço, as pessoas e os objetos que estavam distantes. Agora, entre o olhar e o existente não há mais distância, pois, a partir deste momento, o olhar é inclusivo.

A foto e o gesto inclusivo.

Recortes da existência humana.

Tão poderosas são a imaginação, o gesto e a imagem e o seu registro, que nos devolvem o que havíamos perdido ou esquecido, a essência da vida.

Fotografar é uma maneira de incluir. Inclui o mundo em si, e se inclui no mundo.

A reinvenção do que existe. A recuperação do humano. Tornar humana a paisagem.

O percurso é sempre este, o homem caminha para o humano.

Ser humano é uma constante construção.

(Estas fotos são tocadas pela emoção dos artistas, recortes da existência humana pela imaginação tão poderosa que as reconhecemos como essência de vida. É a reinvenção do que existe.)

J.K.

Click.

Cenas de um enquadramento perfeito.

A arte da inclusão.

A arte consiste em estabelecer uma linha, uma faixa, um sinal, descobrir um território, marcar um espaço, assinalar o lugar onde a luz revela as sombras e onde a sombra elege a luz como personagem.

Anotar, denotar, perceber, tornar seu o espaço, as pessoas e os objetos que estavam distantes. Agora, entre o olhar e o existente não há mais distância, pois, agora, o olhar é inclusivo.

Olhar e fotografar é olhar de uma nova maneira, é olhar novamente e, às vezes, é como ver pela primeira vez, é tornar seu o que estava ausente, é aumentar o seu conhecimento do mundo e aumentar o mundo em si, é incorporar ao seu conhecimento o que era indiferente e distante, é aumentar as coisas que, de imediato, sensivelmente, passam a lhe pertencem. O que antes estava distante, o que não cabia na pessoa, o que pertencia somente ao mundo objetivo, o universo nominativo, o que pertencia ao arquivo distante das coisas do mundo, agora não só está próximo, como passa a lhe pertencer por direito absoluto do gesto criativo.

Fotografar é determinar o que são as coisas, qual o seu limite, qual o seu contorno, onde está a sua luz, onde esta a sua sombra e, por seu olhar e gesto único, por emanar de uma pessoa este gesto e este olhar único, o que for fotografado faz parte de seu ser. Fotografar é aumentar. E é estar mais fortemente no mundo. Fotografar é uma maneira de incluir. Inclui o mundo em si, e se inclui no mundo.

O espaço, os objetos, as pessoas, têm a sua vida própria. Também o observador e o que registra tem a sua vida própria, mas, após o olhar e o gesto inclusivo, a essência já faz parte do observador, daquele que faz o gesto. São independentes um do outro (os espaços, os objetos, as pessoas, o observador), mas, alguma coisa de um, alguma coisa de outro, já são parte de ambos e de muitos, uns e outros, patrimônio comum.

Este procedimento e este programa, “Click, a arte da inclusão”, procura a integração, o trabalho coletivo, agregador, gregário, irmanado. Cada um dos participantes tem a sua individualidade: cada um é um, cada ser é único, cada um se expressa de maneira pessoal e única, e esta individualidade contribui para o processo coletivo, agregador e a obra final tem a participação de todos e de cada um e é, curiosamente, ao mesmo tempo, uma soma maior do que as partes.

O trabalho coletivo na criação artística não é incomum. Na música popular, devido a sua ampla divulgação, é mais evidente. O exemplo maior, o poeta Vinicius de Morais, notável por atuação em muitas áreas, caracterizou-se na música popular brasileira por criar em parceria com outros compositores. Os seus parceiros foram igualmente notáveis, ou, muito jovens, se tornaram mais reconhecidos com esta parceria. Entre outros estiveram na mesma saga inventiva de Vinicius de Morais músicos como Baden Powell, Antonio Carlos Jobim, Toquinho, Chico Buarque de Holanda, Carlos Lira, Edu Lobo, Francis Hime, Pixinguinha, Jards Macalé, Ary Barroso, Antonio Maria, Claudio Santoro, Paulo Soledade, Paulo Tapajós, Adoniram Barbosa, Fagner, Vadico.

Em uma deliciosa crônica no jornal O Globo, de 14.12.1967, o brilhante escritor e teatrólogo Nelson Rodrigues, conta a sua procura de um nome adequado de pessoa conhecida e de vida pública para completar uma frase de efeito que precisava de fecho, e enumera várias figuras públicas, e brinca com esta característica de Vinicius de Moraes: “Por outro lado, o Vinicius é o mais coletivo dos seres. Está sempre em bando. Quando o vejo sozinho tenho vontade de pluralizá-lo, perguntando: – Como vão vocês?”.

O trabalho coletivo não se opõe ao processo de individuação, ou seja, o caminho em direção a mais profunda identidade. O mestre italiano Ítalo Calvino, um dos mais reflexivos escritores do século vinte, num ensaio sobre Francis Ponge, (“Porque ler os clássicos”) entre versos de Ponge e a sua própria interlocução, coloca com extrema clareza este assunto: “…Se ondas do mar chegando à praia declinam todas o mesmo nome, “mil grandes senhores homônimos são assim admitidos no mesmo dia na apresentação por parte do mar prolixo e prolífero”. “Mas a multiplicidade é também o principio da individuação, da diversidade: o seixo é “a pedra na época em que começa para ela a idade da pessoa, do individuo, isto é, da palavra”.

Frequentar as oficinas criativas do IOK é perceber que o genérico é uma denominação cientifica, uma identificação geral, um nome apenas útil, talvez útil, um título, uma nomenclatura e que, independente dela, mesmo atuando dentro desta obrigatória perspectiva global, cada um dos participantes tem o seu modo de ser. A especificidade humana é magnífica, pois é concomitantemente individual e coletiva.

O objetivo técnico e de aprendizado do Click é claro: trata-se de absorver os fundamentos do enquadramento fotográfico, a definição dos closes, os requisitos essenciais da formação de imagem.

O objetivo artístico do Click é mais claro ainda em sua proposta, mesmo que o seu contorno seja naturalmente menos preciso devido a sua obrigatória carga de subjetividade: ver e perceber como a máquina fotográfica com a sua estrutura de fixação e registro da imagem serve como instrumento e mídia de invenção e de descoberta e de autoconhecimento.

A máquina fotográfica, antes de tudo, é a extensão do braço e da mão. Ela apreende o que a mão não alcança. É como se o ser humano ao fotografar se tornasse dono do modelo registrado. É como se ele se apropriasse da alma do modelo selecionado. Não é por acaso que pessoas coevas nossas, mas pertencentes a civilizações distintas da nossa, como algumas tribos indígenas, tinham receio de serem fotografadas na crença de que o fotógrafo poderia roubar a sua alma. De certa maneira estavam certas. Evidente que elas continuavam com as suas almas, ou o que lhes parecia ser as suas almas, mas o fotógrafo se apropriava de uma espécie de “alma” (assim mesmo, entre aspas) do modelo fotografado. A imagem registrada passava a ser parte do seu saber. A imagem estava incluída no seu ser.

A máquina fotográfica é a extensão do olho. O olho vê através dela, porém, ela tem a sua própria tecnologia e forma de registro, já que ela é fruto de um pensamento histórico da civilização. Nenhuma tecnologia é neutra, é um produto histórico. É instigante esta relação homem e o uso da tecnologia, pois é um diálogo do ser com um instrumento ideológico. O homem se acrescenta ao incorporar uma imagem ao seu acervo. E, como esta imagem era inalcançável e distinta dele, ao alcançá-la, ele se incluiu neste espaço simbólico. Através da fotografia o homem se inclui no mundo. Ele ultrapassa a barreira da indiferença. E ele se assenhoreia de cenários do mundo. Fotografar é uma ação da mente e torna o fotógrafo um ser no mundo.

A máquina fotográfica como instrumento de se apropriar, de ter um domínio do mundo maior que o da extensão do braço e do alcance do olho. Melhor, a máquina permite aprofundar a relação, não domínio, com o mundo na altura, na medida, no comprimento da extensão do olhar criador.

Olhar pela primeira vez.

O espanto da imagem registrada.

A imagem como símbolo.

A imagem como ser de vida própria e representação protótipo do existente.

Ver uma imagem pode ser uma experiência transcendente, pois é ver, ao mesmo tempo, todas as imagens do mundo. O observador também passa a ter uma nova percepção do detalhe, revela-se a particularidade, a diferença da visão convencional. O que vagamente passava por seus olhos, agora é fixado pelos seus olhos. A técnica que ajuda a fixar e registrar os detalhes também e reveladora dos detalhes. Aquilo que fazia parte de uma indefinida paisagem, das imagens que, de tão olhadas, faziam parte de uma acomodação do olhar e da mente, como coisa sabida, mas não conhecida, simplesmente constatada, inominada parte do existente, coisa não contestada e igualmente não verificada, coisa que para sempre ali estava, agora se torna protagonista.

A mão deixa de ser um apêndice ao qual não se dá individualidade, torna-se um ator. O rosto revelado em imagem, o rosto como um conceito registrado pela fotografia, adquire uma fisionomia, um aspecto único. Não mais um rosto indistinto na multidão indistinta e anônima, mas um rosto único, destacado do grupo, um rosto tão único como a impressão digital, um rosto que acaba de nascer, um rosto que identifica a espécie humana e o ser que o porta. Ao ver o rosto pela primeira vez, para estes jovens, é entrar em contato com o mistério, com a curiosidade, com o universo revelado.

O espanto revelado, o impacto de um rosto visto pela primeira vez.

Click é inclusão, pois o ser se estende e faz parte de um horizonte mais amplo. Ele se insere no horizonte.

A fotografia como obra de arte.

A fotografia como ação de resultado imediato.

O coração da matéria.

A arte persegue esta meta, identificar o real livre das convenções, das ideias feitas, da percepção domesticada, É o desejo de registrar o cerne pulsante da vida. O coração da matéria. O selvagem coração da vida.

Não só os alunos e novos fotógrafos têm um novo olhar sobre si mesmo, como todos nós, os que contemplamos estes notáveis registros, temos um acréscimo no nosso conhecimento do ser humano, da sua diversidade e de sua realidade. E conhecer o outro, reconhecer o outro, a alteridade, é a conquista essencial dos séculos vinte e vinte e um. É o que nos possibilita reconhecer outras civilizações e seu corpo de saber anteriores à nossa, os direitos de grupos coevos diferenciados do nosso, a sacralidade da vida e da natureza. A introjeção do conceito de alteridade é a chave deste saber e desta constante luta em progresso da humanidade, o reconhecimento do outro. A experiência do Click tem esta chave dupla, a primeira é a inclusão do ser no mundo e o auto reconhecimento; a segunda, é possibilitar a todos nós contemplar, aprender e nos enriquecer com esta vivência extraordinária do Click.

Cenas de um enquadramento perfeito.

Descrição sucinta de uma aula memorável.

O que será uma aula de fotografia?

No início, todos os participantes, tiveram uma visão de si mesmo. De repente todos nós deveríamos enquadrar alguma parte do nosso corpo. Uma moldura vazia enquadrava a parte selecionada do corpo. Cada pessoa escolhia o que desejava destacar e evidenciar. O corpo como um objeto inanimado. O corpo como matéria. O exercício levou todos a pensar no corpo. Primeiro, como uma ação, um exercício, um gesto físico e, depois, por seu valor simbólico e expressivo. A mão, a cabeça, o pé. O braço. Destacado e emoldurado, a parte se transformou em protagonista. Conhecer o corpo e a si mesmo.

Deste enquadramento da parte e do corpo, o destaque dos objetos, o enquadramento do mundo. As mesmas molduras vazias, uma oval, outra retangular, a destacar objetivamente aspectos visíveis. A ideia central do uso de molduras é tornar cada parte selecionada um ser único. O braço, a perna, a mão, os olhos, se tornam pinturas e desenhos.

A máquina fotográfica colocada à disposição dos alunos é a mesma máquina utilizada pelos fotógrafos profissionais transformados em professores. A qualidade do instrumento torna a ação preciosa, valorizada, digna. Nada de condescendência, orientação amorosa, mas exigente. Cada aluno fotografa o que deseja, mas sempre auxiliados pela experiência dos profissionais.

Ao final, todas as imagens registradas são projetadas numa tela e todos, alunos e professores, podem entrar em contato com o trabalho e o resultado visual. Não é surpreendente a qualidade, mas é uma constatação exaltada.

É possível qualificar as fotos em três momentos distintos. O primeiro é o das fotos em si mesmo, do resultado imediato da ação fotográfica. O segundo é a atuação sobre estas fotos. Intervenção no já estabelecido. Uma retomada do conceito de que a intervenção humana modifica a realidade. O terceiro momento permeia os dois primeiros, pois se trata da fotografia documental da ação individual e coletiva. O registro dos encontros e das aulas nos seus aspectos mais imediatos e cotidianos e, de certa forma, mais emocionantes. Um grupo humano no trabalho conjunto de documentar e interpretar a realidade, se autoconhecer e aumentar a sua inclusão no mundo. Uma reportagem sobre o percurso.

Durante dois meses estas aulas se sucederam. O Instituto Olga Kos produziu o projeto fotográfico inclusivo em parceira com a Associação Galera do Click.

“Nós queremos educar a emoção através da arte, promover a formação de pessoas pensadoras e questionadoras, expandindo os horizontes de inteligência delas. É um projeto que acrescenta muito na formação desses alunos. O nosso objetivo é dar “empoderamento” a eles. É fazer com que se sintam capazes e acreditem neles para transformar as suas próprias vidas”, diz a fotógrafa Sandra Reis, responsável pela Galera do Click, uma entidade criada há três anos e que reúne mães de jovens com deficiência intelectual para ensinar técnicas de fotografia a jovens com deficiência intelectual. Sandra é mãe de Felipe, de 24 anos, que aprendeu a fotografar acompanhando-a no trabalho. Ele tem síndrome de Down e foi um dos 60 participantes da oficina que funciona no bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo.

“Esse projeto visa também fomentar o panorama artístico‐cultural do país através do registro de obras de pessoas com deficiência, contribuindo para a democratização de acesso da sociedade aos bens artísticos nacionais, Nosso objetivo desde a nossa fundação e que, ainda hoje, perseguimos todos os dias é a inclusão das pessoas com deficiência intelectual em todos os aspectos da vida social e, através da arte, a sua valorização”, afirma Olga Kos, vice-presidente do Instituto Olga Kos, uma das instituições mais premiadas no Brasil por sua qualidade e por seu caráter inovador.

Existem dois elementos essenciais e interligados na história da espécie humana. Uma insaciável curiosidade e a vontade de conhecer. E isto vale para saber sobre o mundo físico, a natureza do ser humano, os vários povos e culturas existentes. O fascínio do desconhecido. A título de exemplo sobre esta característica humana, constante em todas as épocas, o desejo de conhecer o outro e as suas particularidades, eu selecionei um texto do final do século XIII. É este texto que abre o “O livro das maravilhas”, de autoria de Marco Polo, um dos mais significativos livros de viagem de que se tem notícia.

O Livro das Maravilhas.

Marco Polo

LIVRO PRIMEIRO

Parte 1

1. Aqui começa a introdução do livro denominado: a descrição do mundo.

“Senhores, Imperadores, Reis, Duques e Marqueses, Condes, Fidalgos e burgueses, e todos vós que desejais conhecer as diferenças raças e a s variedades das diversas regiões do globo, tomai este livro e mandai que vo-lo leiam; e nele encontrareis todas as imensas maravilhas e curiosidades da nobre Armênia e da Pérsia, dos tártaros e da Índia e diversas outras províncias da Ásia Menor e de uma parte da Europa, desde o momento em que se parte na direção do Vento Grego, do levante e do Tramontano; assim se descreverá nosso livro e vo-lo explicará, clara e ordenadamente, como as conta Misser Marco Polo, sábio e nobre cidadão de Veneza, tal como as viram seus olhos mortais.”

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