Dia Internacional da Mulher, notícia sobre debate “Religiões e Identidades: Contributo ou obstáculo para a Ig ualdade de Género?”

"Tem sido a «luta» das mulheres a contribuir para a mudança também das vivênciasreligiosas"

Amadora recebeu esta 4ª feira, 7 de março, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, a conferência

Religiões e Identidades: Contributo ou obstáculo para a Igualdade de Género?

"A Igualdade de Género não é a dissolução das características do género", defendeu o pastor protestante José Brissos-Lino, diretor do mestrado em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Brissos-Lino reconhece que o "cristianismo sempre teve dificuldade em lidar com a sexualidade e, portanto, com a mulher", mas que "a teologia cristã não permite a discriminação de género". Em S. Paulo "não há macho nem fêmea" para Deus e nos primeiros tempos havia mulheres a liderar comunidades cristãs.

A Igualdade de Género é um dado "nos evangelhos e na vida de Jesus", acrescentou o padre jesuíta José Maria Brito. Sobre o acesso da mulher ao sacerdócio na Igreja católica, considerou que "o debate tem sido feito mais pela dimensão do poder", quando osacerdócio é, "a exemplo de Jesus", um serviço de responsabilidade transversal.

O padre jesuíta e diretor do site Ponto SJ acredita que pode não estarlonge a existência de diaconisas na Igreja, mas o eventual acesso da mulher ao sacerdócio, "a acontecer, não será na nossa geração".

A perspetiva dos textos islâmicos sobre a mulher foi apresentada por Filomena Barros. A professora de história do Islão e da Linha de Investigação em Género e Religião da Lusófona, lembra que os textos sagrados "devem ser colocados no contexto de quem os escreveu" e há que diferenciar as leituras sagradas, "necessariamente sujeitas à exegese", das construções social, cultural e politicamente desenvolvidas a partir delas.

O que se verifica é muito diferente deste exercício exegético, embora "a realidade islâmica seja muito diferenciada". Há países de maioria islâmica que têm ou tiveram mulheres como chefes de estado. No contexto do tempo, e em relação ao judaísmo, exemplifica a historiadora, o "Alcorão é um passo em frente na dignificaçao da mulher, tem uma Sura dedicada às mulheres, outra a Maria, e usa nalgumas partes o masculino e o feminino – «os» muçulmanos e «as» muçulmanas".

As mulheres tinham um papel relevante no início do Islão, mas mantiveram um obstáculo: "o conceito de pureza e impureza", agregado ao sangue. A mulher carrega ainda este estigma e a religião mantém os rituais de purificação como elemento diferenciador e/ou segregador.

Num testemunho pessoal, Saroj Parshotam admitiu que a mulher ainda transporta estigmas também entre hindus e recordou que, quando nasceu, houve gente na família que lamentou ser uma mulher. Esta situação é mais cultural e de organização social que religiosa, apesar de alguns textos que constituem as narrativas sagradas do sanatma dharma aparentem substimar a mulher. "No tempo dos Vedas havia igualdade entre homens e mulheres", diz Saroj. Embora possa cultural e socialmente não parecer, "os hindus respeitam muito o papel da mulher na comunidade", destacando-se sobretudo "o papel da mãe, a sabedoria da mãe que domina a família hindu e é respeitada acima de todos". Há na tradição mitológica e filosófica hindu uma dimensão feminina sem a qual não se compreende a própria vida. É a shakti, a "força" ou "energia" que dá operacionalidade à existência e ganhou forma de divindade feminina.

O debate sobre Igualdade de Género "não foi trazido à praça pública pelas religiões, mas como oposição ao pensamento religioso", acrescentou Filomena Barros. José Brissos-Lino admitiu que o "cristianismo tem sido um obstáculo, mas a fé cristã é um contributo para a Igualdade de Género". O padre José Maria Brito defendeu a perspetiva católica, segundo a qual o debate é difícil quando o conceito de Igualdade deriva para a Ideologia da indiferenciação sexual, porque homem e mulher, "na perspetiva bíblica, são criaturas de Deus" em complementaridade. "O que sou não é tudo inventado por mim", concluiu.

Já depois do debate, o moderador Joaquim Franco, investigador em Ciência das Religiões e coordenador doObservatório para a Liberdade Religiosa, verificou que, "em contexto religioso, nomeadamente o católico, confunde-sepor vezes Igualdade de Género com Ideologia de Género e, rejeitando esta, que é ainda um campo indefinido e culturalmente complexo, há quem persista em velhos argumentos para dificultar o caminho da igualdade, que passa pelo direito à igualdade nos acessos".

Embora sejam um desafio às religiões, "que devem repensar e reconsiderar o papel da mulher para garantir a dignidade em igualdade", defendeu Joaquim Franco, "os grandes problemas no campo da Igualdade de Género não se localizam hoje nas religiões, que podem até ser aliadas neste processo", sublinhou a historiadora Filomena Barros, lembrando, a propósito, que "a crescente violência doméstica não é um problema religioso" e pode até ser combatida com a ajuda das religiões.

Num comentário final ao debate, a Conselheira para a Igualdade na Amadora defendeu que a "raiz do problema não está nas religiões, mas na forma como homens e mulheres se organizam e relacionam para o exercício do poder". Lurdes Ferreira recordou ainda assim que "tem sido a «luta» das mulheres a contribuir para a mudança também nas vivênciasreligiosas".

Este foi o segundo de um ciclo de debates a realizar mensalmente na Amadora, no âmbito d’O Mundo na Amadora – Religiões e Culturas em Debate, um projeto de parceria entre a Câmara Municipal da Amadora e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

O próximo debate realiza-se a 4 de abril, sob o tema Religião e Política: uma relação (im)possível?, com a participação de políticos(as) e religiosos(as).

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