INAUGURAÇÃO JOÃO DIXO: Domingo, 20 MAIO NO MUSEU DA VILA VELHA, VILA REAL

Inaugura este domingo

JOÃO DIXO (1941-2012): EXPOSIÇÃO CANCELADA

Museu da Vila Velha, Vila Real

20 maio – 2 setembro 2018

curadoria: Paula Pinto

Em 1973, João Dixo apresentou na Galeria S. Mamede (Lisboa) e na Galeria Alvarez (Porto) a exposição Pinturas Anuladas, uma revisão crítica do seu, ainda recente, itinerário artístico. A exposição era composta por uma série de obras executadas como estudante na Escola Superior de Belas Artes do Porto entre 1961 e 1966 e outras posteriores, apresentadas na exposição dos Achados arqueológicos da era da relatividade (época atómica), duma região do mundo (1972), literalmente anuladas em 1973. João Dixo recolheu mais de duas dezenas de trabalhos na casa do galerista Jaime Isidoro (1924-2009) e, de uma forma performática, marcou-os com dois traços cruzados em X; anulando assim todas as obras que foram disponibilizadas para a intervenção com spray prateado, preto e vermelho.

Embora definitivo, o gesto não é o de renegação dos trabalhos, mas o de reativação dos seus sentidos. É contra a persistência dos objetos e da ideia de realidade objetiva, e pondo em causa o sentido do que vemos, que Dixo anula os objetos anteriormente apresentados. O cancelamento transformou-se numa finalidade em si mesma. A pintura converteu-se em ação. Reapresentar as obras modificando o sentido da sua relação com o espectador transforma tanto os objetos artísticos como o nosso entendimento sobre eles. Contra uma ideia estabelecida da obra de arte como conceito original e inalterável, gestos como este – que têm como referência histórica o golpear da tela do artista argentino-italiano Lucio Fontana (1899-1968) no início dos anos sessenta –, tiveram um impacto irreversível no olhar do espectador e na historiografia da arte.

A repetição do gesto interventivo sobre objetos diversificados permite voltar a mostrá-los num novo contexto. Mas como comprova o questionário que Dixo deixa para o público visitante em 1973, é todo o contexto artístico que é posto em causa. Como resume Egídio Álvaro, o crítico que acompanhará o percurso artístico de João Dixo desde esse momento, estas obras formulam uma dupla interrogação: “O que produz o artista? E o que o amador?”

João Dixo terá pedido a vários colecionadores para cancelar os seus quadros, mas é fácil imaginar que nem todos acederam. Apesar de o trabalho ser eternamente da responsabilidade do artista, não lhe é permitido que o altere. Mesmo sabendo que a historiografia dos objetos, as mudanças epistemológicas e as transformações impostas pelas políticas culturais em diferentes espaços e tempos podem mudar a nossa percepção sobre a obra de um artista, existe uma resistência à possibilidade de renovar a condição de existência de uma obra de arte. A museografia da arte e a ideia de sacrilégio impedem a aceitação da renovação de conteúdos de uma obra; impedem a sua transformação física e conceptual.

É pela importância deste gesto de cancelamento das obras de João Dixo, sobretudo numa altura em que se torna possível revisitar o trabalho de uma vida, com todas as transformações que esta assume, que parece assertivo lembrar a possibilidade de duvidar e rever os gestos e os seus significados. Só tornada possível através do empréstimo de obras de amigos, familiares e colecionadores que lhe foram próximos, esta exposição terá valido a pena se conseguir expandir a ideia que cada um construiu sobre a obra e a vida de João Dixo. Esta não é uma exposição retrospetiva, pelo contrário, essa é a exposição que foi cancelada. Esta é uma exposição que celebra o fascínio pela atualização cultural dos objetos de arte expressa na obra de João Dixo.

URSULA ZANGGER (Zurique, 1939): FOTOGRAFIAS DE JOÃO DIXO NOS ENCONTROS INTERNACIONAIS DE ARTE EM PORTUGAL

Ursula Zangger nasceu em Zurique em 1939. Trabalha como fotógrafa desde 1958.

No início dos anos sessenta (1961) instalou-se em Paris, onde conheceu uma grande parte da comunidade de artistas portugueses que frequentavam a residência do casal Maria Helena Vieira da Silva (Lisboa 1908-Paris 1992) e Árpád Szenes (Budapeste 1897-Paris 1985). Nesse contexto retratou uma série de artistas nos respectivos espaços de trabalho. Essa documentação deu origem a uma exposição individual na Galeria EG (Porto).

Em Paris, licenciou-se no Departamento de Estudos Cinematográficos e Audio-Visuais da Faculdade de Vincennes (1975-77), tendo dedicado parte do seu trabalho à documentação fotográfica e video de artistas plásticos.

Desde 1969 que Ursula Zangger tem a nacionalidade portuguesa. Durante os anos setenta trabalhou em estreita colaboração com o Grupo Alvarez, fazendo a reportagem fotográfica das exposições apresentadas nas galerias Dominguez Alvarez e Alvarez Dois. Documentou ainda as performances organizadas pelo grupo em espaços públicos e nos Encontros Internacionais de Arte em Portugal (1974-78), bem como nas Bienais de Cerveira. Colaborou igualmente na Revista de Artes Plásticas (1973-77). É parte deste seu acervo, coincidente com a participação de João Dixo e do Grupo Puzzle nos Encontros Internacionais de Arte, que agora se apresenta no Museu da Vila Velha.

Mais recentemente trabalhou como foto-repórter nos jornais Primeiro de Janeiro, Diário de Notícias e A Voz de Ermesinde, bem como na revista A Razão. Continua a trabalhar como fotógrafa independente.

Ursula Zangger, João Dixo em Valadares, 1973 (20). Dixo051.jpg

Ursula Zangger, João Dixo em Valadares, 1973 (42).jpg

1. TEXTO PAREDE EXPO JOÃO DIXO 19 abril 2018 II.pdf

2. CV Descritivo Exposição Vila Real 2018.pdf

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