JOSÉ PEDRO MOREIRA – O CLIENTE INTERNO

 

 

ele chega apenas

quando é inconveniente

o fato

mais formal

do que a posição exige

anuncia

estou fadado para grandes feitos

mas o tabu da sua calvície

no cimo

como um chapéu de coco

e o par de meias brancas

confessam

estou pronto para amar

 

o universo

como o conhecemos

pode estar

prestes a ruir

os bárbaros descobriram finalmente

que a palavra-chave é Password123

os seus alazões transpõem

as fronteiras semânticas

do mundo civilizado

os cascos pisam

a relva do sentido

e tudo o que resta

são longas horas de xadrez

num tabuleiro de vidro fosco

 

necessário

como um desarranjo intestinal

no primeiro piquenique da Primavera

o pigarrear

interrompe o cálculo

da próxima jogada

amigo

temos um probleminha

não quero gatos por aqui a cirandar

não gosto do cheiro do areão

sabe

e gosto de ter a porta aberta

a privacidade é muito importante

e aqui quem manda sou eu

ontem ao jantar

comi um peixinho

guloso

gosto do meu peixinho

mas frito não

porque me faz mal ao estômago

só de vez em quando

uma vez por semana não faz mal

pois não?

o que acha?

só uma vez por semana

você come peixe?

os peixes não têm alma

pois não?

não é

como as vacas

ou os porcos

uma vaca ou um porco

isso eu ainda compreendo

agora um peixe?

de qualquer maneira

não fumo

isso tem de contar

para alguma coisa

só o cheiro

dá-me dores de cabeça

fale-me da sua vida

está feliz?

chove muito aí?

e faz frio?

o frio não me incomoda

agora o calor

sinto-me tão mal com o calor

e uma cervejinha

geladinha

de vez em quando

sabe tão bem

 

e prossegue

sobre as virtudes do queijo

as propriedades curativas

de certas posições sexuais

indiferente ao facto

de nos termos transformado

na torre do Xadrez de Lewis

olhos redondos de pavor

dentes arreganhados

prestes a trincar o escudo[1]

 

e ainda que a vontade

de o mandar para o caralho

e seguir com a nossa vida

cresça em nós

não faremos tal coisa

não

tal coisa

não faremos

porque ele é o cliente interno

 

[1] aquela figura que me ofereceste

na nossa última visita

ao British Museum

Ler em: GAZETA DE POESIA INÉDITA https://ift.tt/2Nt7qcY

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