MIGUEL FILIPE MOCHILA – EXPLICO ALGUMAS COISA A UM AMIGO

 

 

Para o Sesi

 

E eu visse acaso a monte o mundo vindo
as suas cabeças em chamas, o rebanho desavindo 
e das outras reses da terra onde às vezes se enreda
uma suspeita
dizermos por exemplo qual eu, o coração não, a noite em brasas
coplas altas e as estrelas apagadas
tintas de luz morta, janelas em voz baixa
imperial Madrid em milénio novo
e a casa qual casa
se eu acasalo e digo que é lá no lá com ela
o amor, o ser
menos ainda, um ver se te havias onde fôra o infindo
e a cura, a cura!, Deus, o pão, o ego
a equanimidade global, a travessia às cegas
o turismo love-cost, o ecoconsciencialismo, etc.
só que depois… 
qual depois, antes!, antes a mesma ilesa dúvida
a rasteira mínima pergunta truculenta, o trepidar 
dos pulmões com os foles foleiros
o rimarmos sempre em versículos
átonas e tácitas as sílabas, e as impossíveis 
cantautoras
da nossa festa 
quando é de horror e vácuo o falatório do mundo
elas, ei-las:
nos pulmões às fornadas
fumadas fúrias em noites emborcadas 
até às tantas
minúcias do mundo
ei-las, elas
relambidas, resgatadas 
da rotina lenta, lenta, e não sermos da raça apavorada 
que não reconhece uma pele quando a toca
que não sabe do amor senão os algoritmos 
quando era de ritmos
a mesa posta
com as nádegas inteiras no tampo com a L. e um balázio e tanto
chão a gritar entre o chiar ecoando no bairro inteiro 
o berro
altíssimo dela
e ao altíssimo: amável, contemplativa
ei-la, ela
e ao fundo um limite fundo
um tique um taque, o aro 
das cabriolas
gaiolas pardas, eles blablá que o fulcro e o suco
teorias pandacadémicas, coisas
às listas, coisificadas

famílias inter pares indexadas nos arquivos
os disformes nos conformes e os falsários
corredores universitários, e logo nós 
com o licor posto a esboroar-se na mesa 
como uma fractura exposta 
tu apelando à calma que isto enfim
professores doutores nos queriam
postais do mundo a de
cair nos bolsos atapetados de tabaco húmido
e quanto ao mundo, diz-me: quem mo compra, quem
nos compra este mistério
se eu eis-me acaso a dizer aqui: aqui
a monte o mundo vindo e já advindo
mas não assim, intrépido, indeciso
exactamente aqui é que principia
o tal tudo
e tu dentro dele a pontilhar aromas
uma aragem poeirenta a Periferia
o onde o quando o quem sei lá o quê ou o qual lume desabrido
continuamente em mim

e logo à porta a morta
vida, o viço esflorado, o lado a lado trocado por maquinetas inodoras 
com a tua voz gravada em castelhano rouco
a rotina predadora e a pouca forja 
só de pavor e muco e a cabeça da fronha
levantada
num panorama de jornais como um aladino num tapete de begónias 
que pairasse com auspício e altura
nas barbas rafeiras de Vallecas

a desabar, a desabar 
devagarinho
com vagar vagar ao rés do tal tudo
ver e rever cães a baixa altura, gatos de Barcelona
desençaimados, esganiçadas cigarras, nebulosas na cidade monumental 
guitarras guturais no tablao gentil de Lavapiés 
o tal trote dos sentidos a cavalo do what? a
correr do longe 
com as mil fúrias a pesar aos ombros nos lupanários das províncias
minhas e tuas, as nossas próprias misérias, as nossas próprias penúrias
a Parrala a arder freneticamente na fala: quem 
me compra, quem nos compra este mistério?

se até as fúrias, ei-las: o seu sopro clássico a soprar lá do princípio
até me desaguar a sopa, em papa, e a baba moça
no whisky local, chineses em Segovia, a trocha 
já vincada pelos dentes dessas hidras enormes, miúdas 
os ovários das sereias a chocar um deus inclemente que nos desse temperança

ou temperatura
e um de nós: se é para lá o além, e não: 
nenhuma nave, nenhuma altura, voz intacta alguma, qual 
epopeia ou o caraças: tretas, trelas, bagatelas
e os trastes dos versos a ocultar as imagens 
por exemplo esta sirene em Antón Martín com a poesia a marinar nos ácidos 
as miúdas evidentemente, as nossas penas tão curtidas delas
mas se eram vagens de que meda, frustes álcoois para que noite

acabrunhada, a noite tática 
se tudo agora já diz like: dislate
e eu a perguntar mas eu quem, se tropeçado em tropelia
com o mundo desavindo a vir inteiro explodir em cheio em mim
e ter um amigo, S., a noite desembruxada
e que ao fundo haja inteira
outra língua, a tal âncora em outras águas, e outra rodada
saia na praça deserta, onde se emaranhem unhas e constelações
e a pele 
viva das pessoas vivas a jorrar nos umbrais da movida madrilena
em que vida
já não fosca
quando a chuva é passageira e se enchem folhas e folhas rebocadas
com carne verdadeira nos jornais, a carne inteira
da noite que não sabe da penumbra porque é portátil
e sombra nenhuma: os silêncios, as desavindas, impossíveis lonjuras 
os astros afundados no licor que as bocas já arranham 
com uma língua anfíbia, peninsular, bifronte
e entre nós o teu achamamento, o teu chamamento enorme

 

 

Ler em: GAZETA DE POESIA INÉDITA http://bit.ly/2TIhx07

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